Robert havia chegado deveriam fazer algumas horas. Não dera olá e nem fizera questão de disfarçar seu ódio por enlatados - "Esse é meu filho" - pensou Petterson, enquanto ria desgastado. O mesmo sentira-se aliviado por não precisar disfarçar sua tensão e, pela primeira vez, se viu com olhos agradecidos por seu filho ser como é: indiferente.
Ele não sabia o que Lindsay pudesse estar fazendo, e, sinceramente? Também não queria saber. Não agora. Não depois de ter tomado uma bela ducha e ter se sentido renovado, como se a água pudesse obstruir seus pormenores internos. Fechara o best-seller, marcando a última página lida com as orelhas do livro e colocando-o na cabeceira ao lado de sua cama. Fechou os olhos e afundou-se por inteiro em seus dilemas: Robert, que não lhe dava sossego e o deixava com cabelos desgrenhados de tanto se preocupar com o modo obscuro que demonstrava levar a vida. E Lindsay, a namorada perfeita-mas-não-tão-perfeita-assim, pelo fato de lhe fazer desconfiar de sua fidelidade.
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Lindsay estava na sacada, e nessas horas ela adoraria ser adepta ao uso de tabaco, afinal, combinaria muito com sua situação: mulher leviana, escravizada pela vida de duas mãos que levava, e o pior, todos sabem que se o motorista não decide o que quer e fica em zigue-zague, pode colidir. A cada dia Marcos se tornava cada vez mais sagaz e intragável, mas sempre sedutor. Aqueles olhos fulminavam desejo e cobiça. Uma volúpia que a engolia e a fazia delirar de ódio. Ódio dele e daquela boca carnuda e macia que despejava palavras vulgares, ríspidas, arrogantes e asselvajadas. - "Eu ojerizo aquele boçal com todas as forças que existem dentro de mim. Ele é incrivelmente voluptuoso e excitante. Seus olhos são intensos e ordinários, cheios de si. Olhos de quem paga para ver. Lumes arrogantes, carregadas de luxúria. Luxúria que abraça meu ventre e desfaz meus sentidos - suspirou, exasperada - "Marcos, você me paga." - pensou odiosa enquanto fechava a janela da sacada e tentava se recompor. Ela precisava esquecer que Marcos poderia aparecer a qualquer momento cheio de desejo, não se importando se ela iria aceitá-lo ou não em cima de sua cama, fazendo qualquer coisa relacionada à união de dois corpos, menos uma: amor. O relacionamento entre ambos era um emaranhado descomunal. Ninguém sabia o que sentia. Existiam momentos em que Lindsay tinha vontade de abraçá-lo e dar-lhe cafuné, mas se continha para manter o poderio. Para mostrar que ela também tinha o comando, e que na realidade o sentimento pouco importava ali, entretanto, Marcos às vezes lhe saía bom moço e cheio dos afagos. Afoito por carinho e um ninho para se aconchegar: seu colo. Sorrisos simpáticos e cheios de devoção condecoravam sua face robusta, desfazendo-se da máscara de durão machista e intolerante automaticamente. Nessas horas, Lindsay sabia que estaria perdida se ele decidisse se manter assim por mais de duas horas.
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Petterson estava decidido a não ligar para Lindsay naquela noite, até que algo lhe fez pensar que aquilo poderia soar estranho, já que sempre se desejavam bons sonhos antes de adormecer. O que menos queria era afetar seu relacionamento de forma negativa, antes mesmo de saber se isso realmente era necessário.
Lindsay era uma mulher bela e simpática, cheia de qualidades e bons costumes. Uma das qualidades que lhe eram atribuídas era a de que sabia mentir muito bem, desde que houvesse se programado para o mesmo. Bons costumes? Bom, esqueçamos disso por hora.
Ao finalizar a discagem de números, Petterson pensou em como sofreria caso sua desconfiança passasse a ser um fato.
Após fechar as janelas da sacada e comer um sanduíche natural, a mulher de olhos grandes e puxados estava aflita por uma mensagem ou ligação... de Marcos. Lindsay não suportava mais esperar e enviou-lhe uma mensagem para que ele a ligasse o mais rápido possível.
- O...
- O que você quer Lindsay? - interrompeu Marcos, com voz irritadiça.
- Nossa, esqueceu a educação aonde seu filho da mãe? Lhe enviei uma mensagem pedindo que me ligasse, não que me insultasse. - falou Lindsay, saturada das humilhações.
- Estou pouco me lixando para você, para não dizer coisas piores. - alegou antes de mudar o rumo da conversa. - O que você quer? - indagara impaciente.
Lindsay fechou os olhos, encheu os pulmões e soltara pausadamente, saboreando... Se contendo.
- Eu só queria saber notícias, não sei mais o que estamos vivendo, só sei que estou com saudades daquele Marcos romântico e preocupado com os detalhes do relacionamento - desabou Lindsay, um pouco alterada.
Marcos sentara-se em sua cama com as mãos na cabeça - "Que relacionamento, sua cretina?" - pensara, vincando a testa e desligando o celular sem se preocupar em se despedir ou responder qualquer coisa. Se fosse para responder algo, com certeza seriam palavrões da mais baixa categoria.
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Petterson havia tentado ligar várias vezes, mas o número de Lindsay leu-se como ocupado, e, logo depois, desligado.
Aquilo o alarmou.
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