quarta-feira, 22 de maio de 2013

Dias Gloriosos (3º Capítulo)


O dia amanhecera com leves brisas, o céu se intercalava entre avermelhado e laranja, dando um ar magnífico para caminhar, e era exatamente isso que pretendera fazer, aliás, era o que iria fazer. Levantara-se devagar, despedindo-se do conforto de sua cama, onde o calor habitava para sempre nas noites mais frias. Espreguiçou-se indo em direção ao banheiro, escovando os dentes e arrumando-se de acordo com seu objetivo. Colocara uma calça de moletom acinzentada e uma blusa branca; Marina não podia negar que não se sentia mal em relação à si mesma, ela inclusive gostava de admirar seu corpo bem definido ao espelho, mas também sabia que por questões de saúde, precisava tirar a preguiça e mudar um pouco a rotina.
Enquanto tomava uma batida de frutas, Robert se preparava para fazer seu exercício matinal, e com certeza estava acostumado a fazê-lo sempre. Robert não tinha tendencia a engordar, mas gostava de se manter com o corpo firme e musculoso, e o que mais lhe irritava era às vezes acabar se entregando por um hambúrguer e batatas fritas. Quem não se entregaria? Enquanto se alongava com uma regata vermelha e calças de abrigo totalmente cinzas, pensava em como sentia falta de sair com algum grupo. Sair para 'se divertir' - dera um ar cínico.
Se lembrara da ultima vez que saíra com alguns parceiros, como gostava de se referir.
Saíram em busca de garotas, e nem que tivessem de pagar, iriam encontrar alguém naquela noite, ou melhor, madrugada. Eles conseguiram e a pegaram para a noite inteira, era realmente... - "Gostosa" - pensou. Robert não podia negar que era um tanto quanto malicioso em suas colocações, e sinceramente? Não era nem um pouco santo. Isso ele poderia afirmar com exito, e todos acreditariam facilmente.
Não era fácil acreditar no que seus olhos viram ao sair de casa, mas Marina achara um tanto quanto empolgante. Ela sabia que estava nervosa e sentira uma certa agitação indomável.
Robert estava saindo do portão, enquanto trancava o mesmo pensava que depois iria ter que conversar com seu pai a respeito do almoço - "Aquele velho precisa entender que não é assim que funciona, todos os dias vou ter de comer comida enlatada? Morra então." - pensou.
Marina saíra correndo com intenção de alcançá-lo, sentira borboletas na barriga ao chegar no portão e ver que...
-Marina? Acordada essa hora da manhã? - dissera Robert, sentindo-se cúmplice de seus sentimentos, sentindo que agora tudo começaria a dar certo. Suas mãos tremeram e ele não podia deixá-la escapar.
Marina se encontrava em uma situação complicada, onde seu nervosismo não lhe deixava parar de gaguejar.
- Ah. O-o-oi... Oi. - dissera encabulada, colocando os cabelos para trás da orelha, olhando em direção a qualquer coisa que não a deixasse mirar Robert.
Ele fora até o portão de Marina, que até então não sabia onde era, e por sinal, a sorte estava ao seu lado, pois a casa de Marina batia de frente com a dele. - "Como não a vi antes?" - indagou a si mesmo.
- Vai caminhar também? Se for, poderíamos ir juntos. - dissera com um ar descontraído, como se não tivesse intensões planejadas.
-"Caminhar com ele? Ai meu Deus, o que faço agora?- pensou enquanto  sentia seu corpo se desvanecer por alguns segundos.
-Sim, e-e-u vou caminhar algora. - dissera tão acelerada quanto seus batimentos cardíacos.
Robert tentara não rir da situação em que se encontrava. Ele estava com uma menina bonitona, gaguejando e perdendo-se ao falar com ele. Não era a primeira vez, mas dessa vez ele vira de outro ângulo, e aquilo lhe deixou com vontade de rir, e não de se demonstrar mais sedutor, como antigamente.
Robert e Marina já estavam caminhando e com certeza, estava sendo um pouco constrangedor  para ela, pois não conseguia se soltar e falava tudo errado sem querer, seu nervosismo estava atrapalhando tanto, que por hora, queria se enterrar em qualquer buraco de lama, poça d'água. Qualquer coisa que a fizesse se sentir melhor.
- Mas então Marina, fazia tempo que não nos víamos, eu nem sabia que sua casa era de frente para a minha, entretanto que estou até agora questionando o porque e como não tenhamos nos visto de novo.
Isso era verdade, Marina também se questionara sobre esse aspecto.
-Verdade, me questionei sobre isso também, e com certeza foi algo estranho - dissera sorrindo, e estranhamente mais calma.
-Você caminho todas as manhãs? - indagou Robert.
-Na verdade, hoje estou recomeçando, antes eu caminhava sempre com o Caio, mas desses meses pra cá a preguiça tem tomado conta de mim. - dissera se perguntando porque falara o nome de Caio. Não, jamais poderia cogitar ele na história.
- Ah. Sim, caminhava com seu namorado, então? E agora resolveu retomar sozinha?
Marina não esperava por uma pergunta dessas, ficara um pouco nervosa.
-É que... - hesitou, demonstrando estar meio sem graça com o assunto. - Caio não é mais meu namorado, terminamos desde aquela noite em que nos encontramos.
Aquilo era perfeito, Marina havia terminado com Caio e então Robert não precisaria usar de suas forças para provocar o incidente. Se sentira feliz como nunca por não ter de pensar em mais nada durante essa jornada, a não ser em como abordar Marina para um novo beijo, quem sabe? Afinal, a atração que sentiam um  pelo outro era inegável.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Tempestade de Reações (3º Capítulo)


Sentado em sua cama, analisando toda a sua trajetória com Marina, Caio estava um caco. Estilhaçado por sua cama como um homem qualquer, sem saber bem definir o vazio que sentia, e o pressentimento ruim que andara tendo durante esses dias tão demorados e cheios de angústia. Ele sentia raiva de si mesmo por não esquecer Marina; por não conseguir apagá-la e recomeçar como todas a pessoas fazem.
Passou a mão pelos cabelos rapidamente, perguntando-se o porque tanta desgraça em sua vida. Será que havia atirado um encruzilhado de pedras na cruz? Havia ele tomado as mesmas dores e feito trocadilhos a respeito de Deus e seus princípios?- "Não matarás! - não, não matei ninguém ainda." - conferiu. - " Não darás falso testemunho!".
 Lembranças.
7 anos. Escola no interior da mesma cidade onde residia.
- Qual é a sua Caio? Não vai querer estragar tudo né? A gente bateu nele sim, mas se você abrir o bico, apanha também. - dissera Roger, o valentão da turma, na época.
Caio havia visto a briga na hora do recreio, toda a turma fora chamada para 'depor', na época, como os alunos eram conhecidos e estavam recém cursando o primeiro ano, era assim que funcionava.
-Caio Oliver, por favor comparecer na diretoria imediatamente. - falou a coordenadora, Srta. Flourença.
Sentira suas mãos estremecerem, e assim, fora em direção à salinha da diretora. Uma sala bonita e bem organizada, com paredes brancas, mas uma era vermelha, da cor da camiseta da escola. Sentara-se no sofá da salinha de espera onde logo, a diretora chamou seu nome. O outro aluno saiu da sala imediatamente e Caio entrou com olhar apreensivo, ele tinha algo para confessar, mas sabia que se confessasse, iria sofrer muitos machucados após. Sentou-se na cadeira em frente a diretora, que o olhava seriamente, o fazendo sentir que poderia gaguejar em meio às palavras, ainda mais contando com o fato de que ele estaria mentindo. Dando um falso testemunho.
"Falso Testemunho" - aquilo fizera Caio despertar de seu devaneio por entre suas lembranças. Naquele dia, ele mentira para a diretora a respeito da briga, dissera não ter visto nada, afirmou e jurou por si mesmo. Deus estava o castigando agora. - "Que negócio é esse? Olhe no que estou pensando? - riu de si mesmo - que ridículo".
Caio estava realmente procurando algo que pudesse explicar o que ocorrera em sua vida, em seu namoro. Seu chão caiu e qualquer coisinha poderia ser a desculpa mais perfeita para que pudesse recomeçar. Inclusive uma mentira na escola, aos 7 anos.
Levantara-se devagar, um pouco sonolento. Queria comer alguma coisa enquanto escrevia alguns cronogramas de corrida. Caio agora passara a correr todas as manhãs. Corria durante uma hora sem parar, então logo após, sentava na escadaria principal da cidade, visualizando como os dias são bonitos quando acordamos cedo, logo após comprava uma água por qualquer comércio das redondezas e corria por mais uma hora. Durante esse tempo de corrida, sentia aquele pesadelo todo se desvanecer por dentro de si, o fazendo esquecer que tudo aquilo era real. Por algumas vezes, esquecia-se que havia chegado ao fim de seu namoro e então planejava passar na casa da Marina para matar a saudade. Tristeza. Sim, alguns segundos depois se abatia pelo fato de lembrar-se que tudo aquilo havia passado. Marina não iria recebe-lo com um sorriso e um abraço. Com um beijo. Ela era a primeira menina que, nunca havia se desfeito de o abraçar pelo fato de estar suado, sujo. Terrivelmente inceitável em questão de etiqueta. Quando ele passava na casa dela depois das corridas, ela corria em sua direção sorrindo, parecia que não se viam por décadas. - "Amor, que surpresa" - gritava. Então o abraçava rindo. - "Estava correndo?" "Sim querida, resolvi passar aqui para lhe dar um beijo e ir tomar banho, vamos tomar um sorvete hoje de tarde?" - seu sorriso lhe deixava sem folego - "Claaaaaaaro" - dizia empolgada mas com a voz suave ao mesmo tempo, enquanto lhe enchia de beijos sem parar.
Como num passe de mágica. Puft. Se encontrou sozinho, preparando um misto e um suco de laranja. Sentiu sua garganta arranhar por dentro. A saudade bateu. As lágrimas caíram sem que ele pudesse nem ao menos tentar evitar.