quinta-feira, 4 de junho de 2015

Cândido Insólito (3˚ Capítulo)

"A heart that's full like a landfill [...] Bruises that won't heal..." - ouvir Radiohead poderia ser lancinante, mas nessa altura do campeonato, isso era a última coisa com que Caio se importaria. O que ele menos queria - lá do fundo de seu coração - eram sorrisos estampados no rosto de quem quer que fosse. O que ele menos queria era enxergar a felicidade alheia (não tão alheia assim): a felicidade de Marina. Se fosse possível voltar no tempo e reviver aquela manhã, gostaria de não ter se levantado da cama e nem mesmo chorado uma lágrima sequer ao chegar em casa. Adoraria recomeçar sua vida e parar de sofrer por alguém que se demonstrara tão desprezível.
  Marina sonhava com aqueles olhos azuis que se acinzentavam de uma forma tão casual quanto suas calças jeans, e apesar de terem sido poucos os seus encontros com o homem másculo e tão alto quanto um pilar, ela já sentia que poderia gastar todo o seu estoque de salivas com o mesmo. Robert parecia-lhe muito perspicaz e cheio de truques em seu cortejo. Ora se demonstrava intensamente pronto para engajar um romance salpicado de intensidades colossais, ora lhe parecia cheio dos impasses aprazíveis de se viver em um flerte amistoso. Aquilo era tão bom quanto chocolate na TPM
 Toda a vez que pensava em Caio, Marina sentia que havia feito a coisa certa, no início não, mas depois percebera que nada daquilo estava acrescentando felicidade ou alegria de ver a vida passar por seus olhos. A aventura e o frio na barriga que só sentia com as lumes que tomaram o céu para si.  Caio havia sido um bom rapaz, e ela jamais poderia dizer o contrário para ninguém. Quem o tivesse como namorado, seria muito feliz, mas não teria muitos frios na barriga.
 Depois daquela cena pela manhã, o rapaz esbelto, alto e de cabelos negros decidira colocar um ponto final em seu sofrimento, iniciando por tirar Marina de seu círculo de amizades e viver sua vida como sempre viveu. Ele sabia que seria doloroso e difícil esquecer o sádico olhar de Robert para ele, como se estivesse dizendo: "Esse beijo é um presente para você, seu otário. Sinta o gosto dos suculentos lábios dessa gostosa, que um dia foi sua. Seu banana". O que Caio menos queria era brigar com alguém, e nem mesmo era do tipo valentão, ele só sabia de uma coisa: em seu coração, Marina havia morrido, e mal ele sabia o quão aquilo era verdadeiro.
 Robert estava pensando em como encontrar novamente a moça com os lábios mais macios do mundo, mas logo se esqueceu, ao chavear a porta da casa de seu pai e sair. Naquela noite não existiriam limites e nem mesmo regras. Naquela madrugada ele recompensaria todas as outras das quais se "comportara".
 Seus olhos se enevoaram e ele sabia que, se quisesse ter uma noite intensa e cheia de perversões calorosas, deveria esquecer que olhos doces, ternos e amendoados existiam, e que se o vissem, encheriam-se de lágrimas. O mais esquisito nem era isso, mas sim o fato de  ele sentir a dor arranhar o peito só de imaginar aquele cândido sorriso se esvair, deixando lugar para a chuva, que cairia de seus luzeiros tão belos e amáveis. A chuva e a vontade de secar suas lágrimas com a ponta dos dedos, como da primeira vez que a vira, e logo depois beijar seus lábios de forma suave, como se pudesse tocar sua alma com as mãos, e afagar o coração.
 É, realmente, ele estava estranho. - Reconheceu.

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