Acordar cedo fazia Caio sentir-se cada vez melhor, como se por algum momento pudesse renovar suas forças para uma nova batalha contra o amor que não deixava brechas quase nunca, ou melhor, nunca. Caio sabia que seria mil vezes melhor se pudesse privar-se do céu e das estrelas, se pudesse se privar do amor que contornava maior parte de seu universo, com certeza ele o faria. Decisões, sempre essas malditas decisões que chegavam de supetão e sem mesmo seu assentimento. "Mas que droga" - pensou dando um soco na perna. Porque essas coisas só aconteciam assim? De um dia para o outro, seu mundo havia feito uma volta inteira, onde nem ele pudera impedir. Enquanto tomava pausadamente sua água sem gás, estava sentado na escadaria central da cidade. Já havia acabado seu primeiro tempo de corrida e estava exausto, às vezes Caio tomava a certeza de que aquilo era uma forma de deixar o vento levar tudo. Aquelas coisas que o faziam sofrer cada vez mais, se era difícil? Ele já estava para considerar impossível. Esticara o braços, tentando arrancar tudo aquilo, todo aquele peso e resgatar sua auto-estima. Caio não conseguia compreender o porque de tudo aquilo, e sinceramente? Ele já estava irritado com tudo aquilo. Irritado com o fato de não conseguir pensar em mais nada além de Marina e seu término recente de namoro. Irritado com o fato de não conseguir decifrar o que realmente a fez querer acabar com tudo, talvez houvessem mais coisas em jogo além da briga de tiveram na noite anterior ao episódio que aterrorizou sua vida e o deixara transtornado, e agora? Agora ele estava sentado na escadaria central, esperando uma luz no fim do túnel que na verdade, não existia. Esperando uma resposta que, na verdade, não tem nem questionamento.
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Robert e Marina estavam realmente se entendendo, logo depois de alguns minutos de conversa, Marina passara a se soltar e falar de forma mais desinibida, o que no início não ocorrera. Andando em passos curtos e rápidos, falavam sobre coisas cotidianas, e com certeza aquilo estava sendo interessante para ambos os lados.
Sorrisos não eram resguardados de forma alguma, e sim livres pelo ar, como borboletas na primavera. Aquela madrugada estava sendo resgatada, aquela calada da noite onde os dois puderam compartilhar algo mais forte do que lhes era permitido.
-Porque você estava chorando naquela noite? - perguntara Robert, inocentemente.
Aquela pergunta... Aquela pergunta que lhe afligia todos os dias, e que lhe fazia relembrar Caio... Relembrar todos os momentos em que passara junto dele.
-Não era nada demais... - mentira, tentando escapar de tudo aquilo.
Robert achara melhor não tocar mais no assunto pelo bem do relacionamento amigável e sadio que estava se formando entre ambos.
Os dois sabiam que havia um interessante maior envolvido em tudo aquilo.
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Caio jamais poderia ver a cena que acabara de ver. Não, jamais poderia imaginar que Marina poderia ser tão... Tão baixa. Sim, claro que ela não estava mais namorando com ele, mas depois de tudo o que passaram juntos o mínimo que ela poderia fazer era deixar a poeira baixar antes de sair com outra pessoa logo de cara. Aquele rapaz - Caio sentira seus nervos aflorarem por alguns segundos, e sabia que não poderia agir por si dali em diante. - Aquele rapaz que ele vira quando estava com Marina. Aquele mesmo rapaz que olhara para ela vorazmente, demonstrando descaradamente seu interesse por Marina. "Aquele desgraçado" - pensara, sentindo uma pontada incontrolável de emoções que não poderiam jamais ser explicadas. - não, isso jamais poderia sair impune. - Apertara as mãos, matando aquele cara um milhão de vezes em seus pensamentos.
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-Você caminha mais rápido do que eu imaginava sabia? - falara Robert, brincalhão.
Marina sentira-se tão à vontade para tudo depois daqueles primeiros minutos, e agora, sentia-se tão leve quanto uma pluma.
- Ah, é? Você achava que eu caminhava como? - indagou imitando irritação.
-Bem devagarinho, passos curtos e praguejando como uma louca. - provocara Robert, sabendo que o que viesse após alguns tapinhas seria lucro.
Marina o olhara, com um olhar travesso que foi rapidamente retribuído. Resolvera entrar na brincadeira. - "Robert? Você está falando sério? - imitara uma voz de quem está extremamente triste e desapontado - Não consigo acreditar que conseguir pensar em mim de uma forma tão cruel. " - finalizou, fingindo secar lágrimas pelo canto dos olhos.
Robert se impressionara com a facilidade de Marina para interpretar sentimentos que na realidade não existiam. A partir daí, Robert sabia que eles eram mais parecidos do que ele imaginara. Enquanto gargalhava com Marina, conseguira avistar Caio por perto sentado na escadaria central, onde ele costumava ficar por alguns fins de tarde, e sinceramente? Amou a ideia de conseguir beijá-la antes que ele saísse dali sem poder aproveitar o show. Tadinho, imagine só que lamentável não seria, não acha? Ele precisava muito daquele beijo, e ele lhe seria presenteado. Mas claro que seria, como forma de agradecimento por deixar Marina para ele.
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